A Entidade - Adunesp

"Já publicou o seu artigo hoje?"

Quais são os impactos e significados das reuniões que a reitoria promove regularmente com os novos docentes da Unesp? Esse tema foi debatido na Plenária Estadual da Adunesp de 10/8, o que resultou num documento com a posição da entidade sobre o assunto. Acompanhe abaixo:


Considerações sobre as reuniões de assédio aos novos docentes da Unesp

Nos últimos anos, os encontros realizados pela reitoria da Unesp, sob o pretexto de promover a integração dos novos docentes, vem gerando grande mal-estar no seio da comunidade acadêmica, tornando-se um momento emblemático do ingresso na carreira. Nessas reuniões – realizadas mediante convocação da reitoria, com liberações de diárias, transporte custeado pela Universidade e distribuição de materiais impressos e brindes promocionais –, chamam a atenção de todos os presentes não apenas o elevado custo financeiro envolvido no evento, mas, principalmente, o tratamento ameaçador dirigido contra os novos professores, sobretudo durante as primeiras edições do evento.

Realizadas, ao que tudo indica, com o objetivo de obter o engajamento desses novos docentes a uma concepção de gestão intrinsecamente autoritária e produtivista, ancorada na lógica característica do universo empresarial, as comunicações proferidas pelos gestores, ao mesmo tempo em que saúdam os novos docentes como membros virtuosos de uma pretensa família, apontando para as possibilidades promissoras de desenvolvimento da carreira acadêmica, com todo amparo institucional das pró-reitorias, apresentaram desde o início dados contraditórios, que evidenciaram, flagrantemente, a insuficiência dos quadros de docentes e mais acentuadamente de servidores técnico-administrativos, frente à ampliação desmedida da instituição.

Dessas primeiras reuniões realizadas em São Paulo, algumas frases tornaram-se célebres. “Não pensem que estarão seguros apenas dando as suas aulinhas”, dissera o presidente da Comissão Permanente de Avaliação para os cerca de 300 professores presentes no auditório do Centro de Integração Empresa Escola (CIEE), local onde ocorreu a primeira dessas reuniões, em 2010. “Você já publicou o seu artigo hoje?”, repetiam alguns colegas ao se cruzarem pelos corredores nos dias posteriores ao encontro, reproduzindo a fala de uma das pró-reitoras. No ano seguinte, docentes retornados do encontro, temerosos, relataram o novo bordão do avaliador permanente da reitoria: “O seu tempo agora me pertence!”.

Essa maneira intimidadora e coercitiva de recepcionar os novos docentes é indicativa do acentuado grau de subordinação da estrutura administrativa da universidade pública às concepções de gerenciamento do setor privado; subordinação esta que, de inúmeras formas, compromete a autonomia universitária imprescindível à atividade científica, impondo distorções profundas sobre o próprio sentido do trabalho acadêmico, com repercussões desastrosas sobre as atividades-fim da universidade pública, a saber, o ensino, a pesquisa e a extensão universitária.

Por essa razão, e para além da simples manifestação do repúdio a essas práticas, é preciso contextualizá-las historicamente no campo dos interesses antagônicos que estruturam as relações de trabalho no seio da sociedade capitalista. A construção de um ambiente inseguro engendra relações de subalternidade e estimula o individualismo competitivo entre os trabalhadores. São práticas conhecidas dos manuais toyotistas de gerenciamento, empregadas com o objetivo de ampliar o domínio do capital sobre o trabalho, que cumprem um papel desagregador, eminentemente político, no sentido da intensificação do domínio dos patrões sobre a classe trabalhadora. Na última reunião, realizada em junho de 2015, a liturgia incluiu a distribuição de brindes promocionais, deixando claras as intenções da reitoria.

Da mesma forma como ocorre atualmente no universo empresarial, a gestão das relações interpessoais nos locais de trabalho mediante a instrumentalização racional de estímulos subjetivos, como o reconhecimento, o medo, o individualismo competitivo e a virilidade produtiva, pressupõe o emprego de concepções administrativas inspiradas no chamado “modelo japonês” de gestão, universalizadas na esteira da reestruturação mundial do capitalismo ocorrida nas últimas décadas do século XX, como reação do capital à crise do regime fordista/taylorista de acumulação, mas, sobretudo, como resposta política à organização combativa da classe trabalhadora.

No curso dessas transformações recentes das formas de gestão do trabalho, a cooptação ideológica dos trabalhadores tornou-se elemento decisivo para a obtenção da adesão e do engajamento dos trabalhadores à intensificação da cadência produtiva. Nesse sentido, no universo acadêmico, noções empresariais vulgares, alheias ao conhecimento científico, foram internalizadas e incorporadas ao vocabulário dos gestores, assim como de muitos pesquisadores, materializando um discurso ideológico ancorado em valores como o empreendedorismo individualista, o produtivismo viril, a competitividade institucional vinculada ao rankeamento internacional.

Dentro desse novo contexto produtivo, os docentes-pesquisadores são incitados a maximizar seus índices de produtividade, levados a se sacrificarem, como soldados do capital, para assegurarem a própria sobrevivência, enfrentando demandas sempre crescentes de trabalho, de maneira aparentemente voluntária e em nome de uma abstrata “missão institucional”. A objetivação quantitativa do trabalho acadêmico e as metas de produção impostas pelos mecanismos de avaliação de desempenho da atividade docente traduzem inequivocamente o avançado processo de alienação do trabalho acadêmico.

As consequências dessa forma de cooptação são nefastas para os trabalhadores, não apenas do ponto de vista da integridade física e psicossocial, mas da própria fragmentação do sentido do trabalho, da consciência política, da desidentificação do trabalhador individual enquanto membro de uma determinada classe social, enquanto sujeito histórico capaz de intervir na realidade de forma prática. As inúmeras patologias físicas e psíquicas relacionadas às transformações recentes do trabalho são indicativas do elevado risco a que estão submetidos os indivíduos atomizados pelas novas formas de gerenciamento do trabalho inspiradas no modelo japonês de gestão, que levaram à internalização do domínio e da lógica produtiva responsável por fazer dos trabalhadores, ideólogos do regime e algozes de si mesmos.

Dando continuidade a esse desenvolvimento contraditório, no dia 11 de junho de 2015, a reitoria da Unesp – em parceria entre a Escola Unesp de Liderança e Gestão, a Comissão Permanente de Avaliação (CPA) e a Assessoria de Comunicação e Imprensa (ACI) – realizou a sétima edição do evento "Integração de novos docentes", no auditório da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) do campus de Botucatu, para o qual foram convocados cerca de cem novos docentes contratados entre 2013 e 2014. De forma ainda mais explícita, segundo nota oficial emitida pela própria gestão institucional, o evento foi reestruturado “para permitir um maior contato dos recém-contratados com a administração geral da Universidade”. Na primeira palestra proferida aos docentes, a vice-reitora, fazendo a apologia dos mecanismos de avaliação e acompanhamento, por meio de um vocabulário explicitamente empresarial, justificou-os como meios necessários para assegurar que os docentes ingressantes se ajustem a requisitos absolutamente estranhos aos editais de contratação de servidores públicos, quais sejam, as “características do novo mercado de trabalho – globalizado, dinâmico e que exige competências de empreendedorismo e gestão”.

O brinde promocional distribuído aos docentes durante esta sétima edição do evento não poderia ser mais representativo do caráter empresarial-militar, da obediência servil e da supressão da autonomia imposta pela reitoria às novas gerações de docentes-pesquisadores da Unesp: um soldado-boneco, moldado industrialmente em material inerte, que corresponde perfeitamente às expectativas reitorais em relação aos docentes-pesquisadores.

Em resposta às inúmeras referências feitas pelos gestores contra a atuação da Adunesp – em defesa dos interesses da categoria e do ensino público, democrático, gratuito e de qualidade –, ao longo dessa última reunião, o que beira o assédio moral aos docentes recém-contratados, cabe salientar que a dissociação cartesiana entre as dimensões política e acadêmica da vida institucional da universidade configuram uma tentativa de dividir e despolitizar a categoria, de obstruir a mobilização coletiva e o entendimento da realidade; e, com isso, pretendem assegurar a perpetuação da crise institucional, decorrente das decisões baseadas na unilateralidade arbitrária dos interesses privatizantes da administração em vigor.

Com base nessas considerações, conclamamos todos os docentes a se filiarem à Adunesp, fortalecendo a mobilização da categoria, engajando-se ativamente na construção de uma universidade pública efetivamente livre; comprometida com o exercício de suas atividades-fim – o ensino, a pesquisa e a extensão universitária –, orientadas por princípios críticos, éticos e humanísticos, capazes de promover efetivamente a equidade social, gerar, difundir e fomentar o conhecimento necessário para a superação das desigualdades sociais e para o exercício pleno da cidadania, para além da retórica puramente demagógica dos atuais gestores de nossa Universidade.

Diretoria da Adunesp S. Sindical

  Adunesp     Adunesp  
Site Desenvolvido por InfoPlus