Centro MariAntonia da USP organiza exposição sobre antropologia forense que investiga crimes da ditadura

Centro MariAntonia da USP organiza exposição sobre antropologia forense que investiga crimes da ditadura

Mostra pode ser vista até 27 de setembro 


Fazer falar os ossos: engajamentos presentes com o passado’ é o tema da exposição sobre o trabalho de antropólogos forenses que atuam na identificação de restos mortais de desaparecidos políticos da ditadura militar.

Com curadoria dos professores Edson Teles e Fernanda Cruz (Unifesp) e Lorenza Mondada (Universidade da Basileia, na Suíça), a mostra teve início em 14/8, no Centro MariAntonia da USP, localizado na rua Maria Antônia, 258, Vila Buarque, no centro da capital.

Com financiamento da Fapesp e do Swiss National Science Foundation, a exposição revela o trabalho dos antropólogos forenses que atuam no laboratório do CAAF, o Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Unifesp, na busca pela identificação dos remanescentes ósseos de vítimas da ditadura militar.

Desde 2022, esses profissionais vêm registrando em vídeo a atividade diária, que agora será apresentada ao público. A mostra mescla ainda essa produção com o trabalho de pesquisadores das áreas de Ciências Sociais e Linguística.

O trabalho inédito desses profissionais estará aberto à visitação gratuita até 27 de setembro, de terça a domingo, e feriados, das 10h às 18h. Em alguns desses dias também haverá programação paralela com filmes e debates que poderão ser assistidos gratuitamente. Clique em https://jornal.usp.br/cadernodecultura/mostra-antropologia-forense-ditadura/ para conferir mais detalhes.

Confira a seguir o cronograma divulgado pela organização do evento 

Sexta-feira, 21 de agosto
15h-16h15 - Filme: O DNA da Dignidade (Jan Baumgartner, Suíça, 2022, 61 min)
16h30-18h - Debate: Laboratórios genéticos em contextos de violações de direitos humanos
Lorenza Mondada (professora Universidade de Basel/Suíça)
Edson Teles (CAAF/Unifesp)

A antropologia forense está vivendo a era do DNA, um período de transformação técnica e institucional que está ampliando a identificação de pessoas desaparecidas, mas também complexificando a relação entre o conhecimento científico e o envolvimento dos movimentos de direitos humanos. Embora a genética tenha sido utilizada em contextos jurídicos como uma técnica poderosa, capaz de resolver todos os casos, e esteja impulsionando a “revolução forense” que busca reidentificar pessoas desaparecidas, sua mobilização também gera tensões. Surgem questões sobre como o DNA é coletado em cenas de crime, muitas vezes contaminadas por outros atores, e, portanto, quais são as condições para sua eficácia. As questões também dizem respeito à relação entre o campo – a violência em ação, as valas comuns – e os contextos em que o DNA é coletado (ou não). As questões dizem respeito, ainda, ao distanciamento físico e simbólico dos familiares em relação às evidências forenses, levando à tecnicização das evidências e à despolitização da memória dos corpos. Este painel levará essas questões a debate.

Quinta-feira, 27 de agosto
15h-17h – Mesa-redonda: Contribuições da linguística para a virada forense
Lorenza Mondada (Universidade de Basel/ Suíça)
Jana Viscardi (escritora e linguista)

Esta mesa-redonda tem como objetivo mostrar como a linguística, por meio de colaborações com outras disciplinas, como a sociologia, a antropologia e o direito, está envolvida na atividade forense. Esta mesa contará com a participação de Jana Viscardi, linguista, escritora e comunicadora científica que explora as relações entre linguagem, comunicação e a maneira como compreendemos o mundo, e Lorenza Mondada, figura de destaque no campo dos estudos da interação social em diversos contextos cotidianos, profissionais e institucionais, com base em uma perspectiva etnometodológica, análise da conversação e análise de vídeo.

A discussão abordará também mostrará como novas direções podem ser desenvolvidas por meio da análise de vídeo e da multimodalidade para investigar como as investigações forenses se baseiam na fala e no corpo para coletar, examinar, discutir e negociar fatos, inferências e evidências que possam levar à reidentificação de pessoas desaparecidas e/ou à elucidação de fragmentos de um passado violento que contribuiu para o seu desaparecimento.

Sexta-feira, 28 de agosto
15h-16h40 - Filme Post-Mortem (Pablo Larraín, Chile, 2010, 98 min)
17h-18h30 - Debate: Mobilização jurídica transnacional, Direitos Humanos e Memória da Ditadura na América Latina
Janaina Teles (Historiadora, professora UEMG)

Esta mesa examina como advogados, entidades e ativistas de direitos humanos se articularam para disseminar denúncias de graves violações de direitos humanos e fortalecer a cultura de proteção a esses direitos. Focamos na estratégia de mobilização transnacional, demonstrando a atuação desses atores no âmbito da Comissão e da Corte Interamericanas de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (CIDH/OEA). Ao mapear essas redes de ativismo, a apresentação busca mostrar como a litigância e a pressão internacional foram utilizadas como ferramentas políticas e jurídicas para constranger Estados com histórico de violação de direitos durante as ditaduras latino-americanas. Desde uma perspectiva comparada, a análise oferecida abordará particularmente a experiência brasileira.

Terça-feira, 1º de setembro
15h-17h - Filme Madres Paralelas (Pedro Almodóvar, Espanha, 2022, 120 min.)
17h-18h- Arqueologia forense e suas representações
Paula Nishida (Arqueóloga do CAAF/Unifesp)

De Goya a Almodóvar a violação dos direitos humanos foi apresentada de diversas formas. Em Madres Paralelas, o diretor Almodóvar abre espaço para uma arqueologia distante do glamour hollywoodiano, promovendo um olhar científico e realista para o período histórico espanhol na ditadura franquista e o processo de enfrentamento de seu legado por meio da arqueologia forense. Nesta conversa pretendemos abordar a contribuição das ciências forenses para os processos de localização, exumação e identificação de pessoas em contextos de desaparecimento forçado.

Sexta-feira, 4 de setembro
17h - Conferência: 36 anos de abertura da Vala Clandestina de Perus
Amelinha Teles, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e doutora Honoris Causa da Unifesp, mais convidados

Amelinha Teles destaca como a descoberta de ossadas na Vala Clandestina de Perus, em setembro de 1990, concretizou a figura do desaparecido, rompendo o silêncio e o negacionismo sobre a violência da ditadura. Ela enfatiza a luta dos familiares para comprovar a existência dos desaparecidos por meio da emergência de milhares de ossos em uma vala construída pela ditadura, o que era negado até aquele momento, transformando a questão dos desaparecidos em um debate concreto e de resistência contra o apagamento histórico. Em conexão com a exposição “Fazer falar os ossos", esta mesa mostra ainda o papel central que a Vala de Perus tem no desenvolvimento técnico-científico da antropologia forense no Brasil. Hoje, 36 anos após a abertura da Vala, os familiares, especialistas forenses e pesquisadores seguem com a mesma pergunta: “Onde estão os nossos desaparecidos?”.

Terça-feira, 8 de setembro
15h-16h20 - Filme Nuestras Madres (Cesar Diaz, Guatemala, Bélgica, França,2019, 78 min)
16h30-18h - Debate: O papel das mães e familiares de mortos e desaparecidos políticos na busca por evidências do passado ditatorial
Janaina Teles (Historiadora e professora UEMG)

Esta palestra aborda a trajetória dos familiares de mortos e desaparecidos políticos no Brasil desde os anos 1970, analisando as complexas conexões existentes entre as esferas pública e privada no âmbito do direito ao luto e à justiça. A apresentação busca recuperar como essa/es atores políticos desafiaram o silêncio imposto pelo Estado para legitimar publicamente seu luto e exigir responsabilidade jurídica e histórica. Ao protagonizarem a busca por verdade e justiça, as mães e os familiares transformaram-se nos principais portadores da memória das violações de direitos humanos da ditadura militar, desempenhando um papel central na resistência ao autoritarismo e no processo de (re)democratização. Por fim, esta mesa discute os limites da democracia, ao analisar os ecos traumáticos da ditadura na atualidade, e como a constante interdição e o apagamento do passado se constituem em obstáculos para a conclusão do luto e a superação de nossa herança autoritária.

Quinta-feira, 10 de setembro
15h-17h - Conferência: Familiares e antropólogas: a memória e a história da investigação forense sobre os crimes da ditadura
Criméia de Almeida, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos
Amelinha Teles, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos
Aline Feitosa de Oliveira, antropóloga forense do CAAF/Unifesp
Lorenza Mondada, linguista e etnometodóloga, pesquisadora do Projeto Fazendo falar os ossos, professora Universidade Basel/Suíça

A localização e identificação de desaparecidos da ditadura brasileira inserem-se na intersecção entre técnicas forenses e a resistência social, transformando a busca em um ato de reparação histórica e produção da verdade. O debate reunirá uma antropóloga e familiares de desaparecidos políticos para discutir como o trabalho técnico na Vala de Perus e a luta dos familiares evidenciam os limites e alcances das possibilidades de reparação, justiça e memória na democracia pós-ditadura.

Sexta-feira, 11 de setembro
15h-17h40 - Filme O Agente Secreto (Kleber Mendonça Filho, 2025, 158 min)
18h-19h - O agente secreto e os desafios da identificação humana
Pádua Fernandes, pesquisador do CAAF/Unifesp e escritor

O filme de Kleber Mendonça Filho lida com questões fundamentais da identificação de desaparecidos da ditadura: as dificuldades da pesquisa documental, a busca das identidades e dos codinomes, o trabalho antropológico com os corpos, a participação dos familiares, a atuação criminosa dos grupos de extermínio e do empresariado, a precarização da universidade, entre outras. Será discutido como elas entram em jogo com a memória, desafiada tanto pelo segredo quanto pelo esquecimento.