“Transformar a esperança em realidade duradora” exige manter a mobilização que inundou o país no segundo turno, apontam entrevistados

“Transformar a esperança em realidade duradora” exige manter a mobilização que inundou o país no segundo turno, apontam entrevistados

Para avaliar o cenário que emerge após as eleições, a Adunesp traz a opinião dos participantes do debate sobre conjuntura realizado nas comemorações dos 50 anos da entidade

 
O Brasil ainda respira os ares da sua disputa eleitoral mais surpreendente.

Após perder o primeiro turno para o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, que alcançou 56,1 milhões de votos, o atual presidente, Luís Inácio Lula da Silva (PT), com seus 53,87 milhões, tinha pela frente o gigantesco desafio de protagonizar a primeira virada da história do país.

Os números finais do segundo turno, na noite de 25 de outubro, proclamados pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kássio Nunes Marques, foram impressionantes. Lula virou com 64.256.232 votos (51,79%), contra 59.826.041 votos (48,21%) de seu oponente. Em relação ao primeiro turno, o candidato petista cresceu 10,379 milhões de votos, enquanto Bolsonaro subiu 3,721 milhões. No segundo turno, a diferença entre primeiro e segundo colocados ficou em 4,4 milhões, pouco mais de 3,5%.

O segundo turno tem vários outros números espantosos. No total, compareceram às urnas 128.236.074 eleitores (80,78% dos aptos a votar); a abstenção foi de 30.509.005 (19,22%), cerca de 2% a menos que no primeiro turno (em torno de 2,96 milhões de pessoas). Entre os que haviam votado nulo no primeiro turno, perto de dois milhões decidiram validar os votos no segundo turno.

As três semanas que separaram o primeiro escrutínio do segundo registraram uma mobilização popular, marcada fortemente pela juventude, que há muito não se via. Iniciada por uma passeata espontânea dos estudantes do campus Niterói da Universidade Federal Fluminense em apoio à candidatura Lula, que foi ganhando adeptos pelas ruas próximas ao campus, no dia 5/10, uma sequência de manifestações populares inundou capitais e cidades de todo o país.

Pouco antes do segundo turno, no dia 19 de outubro, dentro das comemorações dos 50 anos de sua fundação, a Adunesp promoveu uma mesa de debates sobre a conjuntura. Como era de se esperar, as análises dos expositores – Osvaldo Coggiola (professor da USP), Glauber Braga (deputado federal pelo PSOL), Gilberto Marques (professor da UFPA) e Angélica Lovatto (docente da Unesp e diretora da Adunesp) – foram atravessadas pelo momento político, como você confere aqui.

Para buscar respostas às perguntas que emergem do segundo turno – O que explica a inédita virada? O que esperar agora? – a Adunesp entrevistou os mesmos debatedores.

A insurgência da juventude

Um primeiro aspecto a destacar, para Angélica Lovatto, é que a virada de votos não foi resultado direto de um esforço centralizado pela coordenação da campanha do próprio candidato Lula. Ao contrário, a notória desarticulação no primeiro turno rendeu, inclusive, uma reprimenda do próprio Lula, que acabou vazada no dia seguinte à derrota no primeiro turno, afirmando que “nunca tinha visto uma campanha à presidência tão desorganizada”.

A diretora da Adunesp aponta o voto contra o bolsonarismo como elemento fundamental na virada. Para ela, mais do que um voto de aprovação do governo Lula, a virada veio de um temor dos eleitores brasileiros no retrocesso autocrático que o bolsonarismo representaria, o perigo de uma nova ofensiva ditatorial e a ameaça de uma mudança arbitrária na Constituição brasileira. “Nesse voto anti-bolsonaro pesou muito, no plano das necessidades imediatas da população, o temor da perda de direitos básicos já adquiridos, como o Bolsa-Família e programas congêneres, além do medo de perder o SUS, que comprometeria ainda mais o quadro do direito à saúde no país.”

A campanha de Lula, concorda Glauber Braga, ficou identificada como aquela vinculada a avanços materiais para a classe trabalhadora, como o fim da escala 6X1, em contraste com a campanha de Bolsonaro, aquele que colocaria em prática medidas como as adotadas por Milei, na Argentina, com ataques a benefícios sociais. “A combinação desse conteúdo com uma mobilização social que ganhou as ruas e que não ficou presa aos palácios, na minha avaliação, foi o instrumento prioritário da vitória robusta”, diz.

Para Osvaldo Coggiola, a acachapante derrota eleitoral de Bolsonaro foi, antes de tudo, produto de uma impressionante mobilização popular, iniciada pela juventude, em especial o movimento estudantil. “Salvo exceções, como o Andes-SN e suas seções, o movimento sindical esteve praticamente ausente”, assinala. A decisão do Andes-SN, de apoiar e se engajar na campanha eleitoral de Lula, “para derrotar Bolsonaro nas ruas e nas urnas”, considera o docente da USP, revelou-se “inteiramente justa, pois não era possível manter uma posição de isenção em condições de uma encruzilhada nacional que afetava toda a população e todas as instituições do país, Universidade pública incluída”.

Gilberto Marques também ressalta a insurgência da juventude – e a ela acrescenta “a tomada das redes sociais” – como elemento central, mas tendo como pano de fundo importantíssimo o receio de efetivação do fascismo. “Permanece viva a lembrança do que foram os quatro anos do governo Bolsonaro, e a isso se soma o perigo de perda de direitos sociais”, aponta. “Isso tudo promoveu uma mobilização popular como nunca vista e impôs uma derrota eleitoral no segundo turno não apenas à direita brasileira, mas aos grandes meios de comunicação, às big techs e ao capital financeiro, que são interesses de escala mundial cuja principal expressão política é o governo estadunidense.”

Olhando os fatos que se seguiram à vitória de Luta – a fuga do candidato do PL para os EUA e a tentativa de se autoproclamar “presidente” à distância – Coggiola considera que o isolamento do bolsonarismo dentro da própria direita, que não encampou seus planos, também é consequência da mobilização popular. “Foi ela que desmontou o projeto de criação de um regime ditatorial, com o judiciário e o legislativo reduzidos a marionetes de um executivo dominado por um clã de chefes milicianos, uma autêntica quadrilha.”

Braga pontua que a forte mobilização, iniciada pelos estudantes de Niterói e que se espalhou pelo país, teve um conteúdo político bastante claro. “Foi a demonstração de que a agenda de austeridade e de submissão do Brasil estava associada ao candidato mascote de Trump, o senhor Flávio Bolsonaro.” 

As redes sociais e o ‘Exército do Lula’

A “tomada das redes sociais”, como classificou Marques, também chama a atenção dos entrevistados.

“A metodologia Janones, como vem sendo chamada, criou o ‘Exército do Lula’ tendo como parâmetro de luta digital o mesmo padrão de engajamento e distribuição de materiais que a extrema direita tinha usado com eficácia em outras eleições”, diz Angélica, referindo-se às iniciativas do deputado federal André Janones (Rede-MG), que tiveram o objetivo de derrubar hashtags e threads da extrema-direita, além de cobrir as 24 horas antes das eleições com uma live ininterrupta. O “exército” reuniu cerca de 10,5 milhões pessoas.

A diretora da Adunesp comenta que a metodologia está agora sendo comemorada em nível internacional e já está sendo solicitada por setores das candidaturas que se identificam como de esquerda, como é o caso da Espanha, Argentina e França. Nesta última, já se formou um “exército” nos mesmos moldes.

“Usar o algoritmo a favor das forças progressistas, coisa que a direita utilizou à exaustão, era um aspecto reclamado pelo amplo arco de forças políticas que se reivindicam como esquerda. Claro também está que as forças de direita têm o apoio não só do instrumento digital propriamente dito, mas usufruem da força econômica dos próprios proprietários por trás dos algoritmos”, prossegue Angélica. “Sem a rua, a campanha digital teria alcance, mas de forma limitada. O que vimos foi uma potencialização entre ruas e campanha digital.”

Osvaldo Coggiola, Angélica Lovatto, Gilberto Marques e Glauber Braga

 

O cenário que se projeta

Coggiola lembra que o próximo governo Lula já anunciou que será um “governo de ajuste”, já tendo ventilado medidas como a ampliação em 20% da margem para cortes no orçamento, proposta que busca reforçar o controle das despesas públicas em 2027 sem alterar o teto de gastos, o “arcabouço fiscal”. Ele é enfático: “Com um orçamento comprometido pela metade no pagamento da dívida pública com o grande capital financeiro, cabe prever um cenário de aguçamento da luta de classes, em defesa dos direitos conquistados e da sua ampliação.”

“Só quero lembrar para os setores que estão falando em ajuste fiscal que essa agenda foi derrotada nas urnas”, avisa o deputado do PSOL. “O representante do ‘tesouraço’ e da ‘motoserra’ de Milei está nesse momento fugido nos EUA. A campanha de Lula mobilizou com energia exatamente aqueles que querem a implementação do fim da escala 6X1, por direitos dos trabalhadores, contra as privatizações e pelo fortalecimento do serviço público, e é nesse caminho que temos que seguir.”

Angélica concorda: “A mobilização política do voto, que foi muito eficiente, precisa agora dar um salto, ou seja, precisa avançar para uma mobilização econômica”, diz, referindo-se às pautas dos direitos trabalhistas, especialmente. Para ela, temas que são plebiscitários podem gerar mobilização de rua de grande monta e inspirar novamente a replicação coordenada da militância digital, que foi tão bem-sucedida no segundo turno. “Evidentemente, a questão concreta das lutas dos trabalhadores não vai ser resolvida por um aspecto apenas, mas pela recíproca potencialização entre rua e redes, entre greves e sindicalizações, entre mobilizações nos bairros e nos centros urbanos metropolitanos, entre o regional, o local e o nacional”, encerra.

Para Marques, a vitória de Lula foi muito expressiva e pode ser um ponto de freada na onda reacionária que avança no mundo, mas o país permanece muito dividido e parcela significativa da população, incluindo trabalhadores e trabalhadoras, continua sendo pautada pelas políticas da direita. “Como o Congresso vai ficar mais reacionário do que já é, o governo Lula vai ter que escolher entre ir mais para junto do Centrão, aceitando suas imposições, como é o caso de uma nova reforma da Previdência, ou estimular a permanência da mobilização popular para pressionar o Congresso”, prevê.

Independente dos caminhos que Lula vai tomar – conclui Marques – é preciso organizar comitês populares suprapartidários, independentes dos partidos, do governo e antifascistas. “Eles devem organizar a luta contra a ultradireita e a defesa dos nossos direitos. É fato que no segundo turno a esperança venceu o medo. O nosso desafio agora é transformar a esperança em realidade duradora.”